Postado dia 08/05/2014 às 17h31 - Atualizado em 15/09/2014 às 19h46

Dentro e Fora dos gramados

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A comparação de negros a macacos é racista. Mas é preciso ser negro para saber o grau da ofensa. Nesse sentido, Neymar, um rapaz negro que pensa não ser negro, embarcou uma encomendada campanha publicitária contra o racismo. Nesta campanha, o dizer: “Somos Todos Macacos”. A campanha pegou carona na atitude de Daniel Alves, também jogador de futebol, comer uma banana lançada por um torcedor espanhol. Contudo, é preciso separar as duas ações. A campanha do Neymar foi planejada; o ato de Daniel Alves, ao que parece, foi espontâneo. Entretanto, as duas figuras optaram por ignorar e tentar ridicularizar os ofensores. Na condição social dos dois jogadores o mais cômodo é realmente ignorar o racismo. É como se dissessem a seguinte mensagem: “Somos milionários... E você que joga uma banana pra mim?” Quando se é negro e rico é muito tranquilo ignorar a existência do preconceito, apesar de não conseguir anulá-lo. Mas os efeitos são, obviamente, mais leves.


Dani Alves e Neymar dificilmente seriam confundidos com assaltantes, caso que recentemente o desconhecido ator Vinícius viveu; não seriam presos, torturados e desaparecidos como o servente de pedreiro Amarildo e inúmeros outros; assim como muito difícil seus corpos serem arrastados por um carro da PM após, sem motivo, baleados por preconceituosos fardados; nem aconteceria, depois de confundidos pela polícia, ter seus corpos desovados numa creche; não seriam linchados no Guarujá/SP ao serem confundidos por seqüestradores de crianças e praticantes de “magia negra”. O perigo que Dani Alves e Neymar enfrentam nos gramados é ter que comer uma tonelada de bananas que a maior parte da população da Espanha deseja jogar em descendentes de africanos. O perigo que a população negra “não milionária e famosa” enfrenta no dia a dia é infinitamente superior aos enfrentados pelos jogadores em questão.


Será que a melhor saída é comer uma banana e fazer um selfie? Claro que não! Essa questão é bem mais complexa. O racismo só vai ter fim quando as pessoas preconceituosas assumirem que são e tentarem se reconstruir como seres humanos. Ignorar o racismo, dentro ou fora de um campo de futebol, é meramente continuar de olhos fechados para esses absurdos que ainda acontecem.