Postado dia 15/03/2015 às 15h03 - Atualizado em 15/03/2015 às 15h15

A marcha dos ingênuos comandados pelos oportunistas

E veio a crise. Aquela mesma que há anos 12 anos a mídia brasileira alardeia que viria. É certo que mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes ao dia, e uma hora haveria de acertar, afinal os mais jovens podem não lembrar, mas qualquer um com mais de 30 anos lembra o que é uma crise econômica. A última que passamos não faz tanto tempo assim, foi em 2002, último ano do “reinado” do PSDB no governo federal, com o presidente FHC. Também não é de saudosa memória a crise de 1999, neste mesmo governo.

A violenta crise econômica de 1992 ajudou um pouco a derrubar o presidente Collor, pois embora ele estivesse claramente envolvido num esquema de corrupção, é certo que se não fosse a insatisfação do povo com a economia, não teria sofrido processo de impeachment pelo congresso.

Collor por sua vez se elegeu posando de oposição ao governo em meio a crise econômica de 1989, que sepultou todas as chances do PMDB fazer o seu sucessor. Também foi a crise que levou o PMDB ao poder, quando a recessão econômica de 1982-1984, fez com que o povo finalmente se cansasse da ditadura militar. Se o povo não liga tanto pra democracia, liga pra falta de comida, e quando o regime militar deixou de dar resultados na economia, perdeu o apoio.

Os militares também enfrentaram uma crise econômica brava nos anos 70, a famosa “crise do petróleo”, que levou ao racionamento de combustível. Os mais velhos podem contar sobre os decretos que fechavam postos de combustível nos fins de semana e proíbam seu funcionamento após as 10 horas da noite. A coisa só não ameaçou o regime porque a ditadura era feroz, quanto a mídia (leia-se Rede Globo) soube deixar muito claro na cabeça de todos que a crise era mundial, e não necessariamente culpa do governo.

Hoje o cenário não é muito diferente da crise do petróleo da década de 70, com o preço do combustível disparando em todo mundo. A alta do dólar foi mundial, e colocou até o poderoso Euro em cheque. A diferença é que o governo democrático não tem o mesmo apoio da mídia que o regime militar tinha. Pelo contrário, se vê, principalmente na Rede Globo, uma manipulação dos fatos, omissão de informações, e uma pauta construída para levar o país a um clima de desestabilização política.

Desde que os chamados partidos de oposição falharam em convencerem a população de que eram alternativas políticas, a mídia, cujos proprietários representam as mais tradicionais famílias do Capital brasileiro, resolveu assumir esse papel. O problema é que os barões da mídia (TV, rádios, jornais e revistas) não são apenas empresários, mas lidam com um serviço público importante a população que é a informação. A partir do momento que estes setores tem envolvimento político, acabam poluindo os noticiário como vem acontecendo, e assim criando falsas premissas que convencem principalmente aqueles que falta tanto formação política quanto foram vítimas de um sucateado sistema educacional que forma analfabetos funcionais todos os anos.

Em suma, a nossa imprensa picareta dá certo no Brasil porque a maioria do povo não tem condições de se defender – nem a classe média que gosta de exibir seus diplomas conseguidos em universidades de esquina, pois como demonstrou pesquisa do MEC, 38% dos universitários do país são analfabetos funcionais também: não conseguem interpretar o que lêem.

Claro que a mídia não está articulando um golpe sozinha. Os partidos derrotados, principalmente o PSDB, incapazes de vencer numa eleição legítima onde a MAIORIA dos que queriam votar deram sua opinião, financiam e convocam as manifestação do dia 15, enquanto seus líderes hipocritamente afirmam no facebook que são “apartidários”.

É certo que a população tem direito de se manifestar e de criticar qualquer governo que for. Mas numa democracia, o que vale é a decisão da maioria, e milhares na rua nunca serão os milhões nas urnas. De quatro em quatro anos o povo é chamado para escolher seus governantes. Não respeitar esse sistema, e fazer coro com aqueles que querem impor as decisões da minoria sobre a maioria, e a isso sempre chamamos de ditaduras. Não por acaso os que bateram panelas no domingo passado eram na sua grande maioria residentes ricos dos condomínios mais caros do país, indignados, provavelmente, com o aumento do salário mínimo que terão que pagar as empregadas domésticas, que só passaram a ter direitos trabalhistas durante o governo petista, verdade seja dita.

Muitos podem ir pra rua dia 15 acreditando que assim mudarão o governo. Nada mais falso. Não há indicio algum de crime por parte da mandatária do país. Não há base para processo legítimo de impeachment (ao contrário do que aconteceu com Fernando Collor). O mesmo não pode ser dito do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que assumiria o governo no caso do presidente e do vice serem cassados, e cujo nome se encontra também na lista do Lava Jato, bem como do presidente do Senado, Renan Calheiros, também do PMDB, o terceiro na lista de sucessão. Chega a ser irônico que o PSDB de Penha esteja se mobilizando tanto pra ajudar o PMDB a voltar a governar o país. Haveria um acordo nas altas esferas do qual não sabemos?

Acreditar que o processo de impeachment traria novas eleições é não entender como funciona a constituição do país, e acreditar que esta poderia ser desrespeitada e as coisas seguidas de outra forma, que fiquem avisados que isto se trata de crime previsto em lei, e não por acaso é o que os historiadores chamam de “golpe de estado”.