Postado dia 25/08/2015 às 12h29 - Atualizado em 11/10/2015 às 12h35

A Queda das Máscaras

Caiu a máscara do presidente do congresso, Eduardo Cunha (PMDB). Posando de homem religioso, as denúncias (e provas) mostram que se a religião tinha utilidade para ele era no sentido de usar a Igreja para lavar dinheiro. Os depósitos da propina eram feitos para uma das igrejas “Assembléia de Deus”, e depois repassados ao deputado.

Mas se caiu a máscara de Cunha, faltam cair muitas máscaras, como a do juiz Sérgio Moro, que recebe 77 mil reais mensais, acima do piso previsto em lei, e cuja esposa trabalha como advogada do PSDB – o que talvez explique porque apesar das provas, as prisões tenham evitados políticos desta sigla, enquanto outros são presos com base apenas em “delações”, sem quaisquer provas materiais do que falam seus acusadores.

O Brasil talvez seja hoje o único país do mundo onde tem uma “polícia política” que atua contra o próprio governo. Em geral, tal tipo de inquisição, onde acusações baseadas em palavras sem fatos materiais são utilizados para perseguir pessoas, são utilizados pelas policiais de outros países contra os opositores de seus governos. E há quem diga que aqui é uma “ditadura”! Ah, jamais se viu antes um governo onde se cortou tanto na própria carne, e nem as mais chegadas figuras partidários dos atuais mandatários da nação estão protegidas da ação da polícia e da justiça.

Se alguém está protegido, ironicamente, é a chamada oposição. Aquilo que a imprensa chama de “mensalão mineiro” (porque a imprensa não quer chamar de “mensalão tucano”) prescreveu no ano passado, sem a menor punição (nem julgamento) dos envolvidos. Também no ano passado foi pego um helicóptero pertencente a um deputado carregando 450 quilos de cocaína, vindo da fazenda do pai deste deputado, um senador, ambos do estado de Goiás. Ambos aliados de certo candidato a presidência da república. O assunto não teve maiores consequências. Como não teve consequência a denúncia de uso de dinheiro público para construir um aeroporto (!) na fazenda do tio do tal candidato.

Poderíamos aqui citar uma centena de casos semelhantes, mas o leitor deve conhecer a história. No Brasil não é qualquer caso de corrupção que cola, mas aquele que interessa a mídia colar, e aquele que nos interessa acreditar. Se o caso envolve político ou partido de nossa confiança, preferimos não acreditar, da mesma forma que uma acusação por mais leviana que seja envolvendo alguém que não gostamos, acreditamos (e divulgamos) na hora.

Não é só nossa justiça, a nossa mídia, mas nós mesmos quem praticamos pesos diferentes para a mesma medida. Somos parciais. Não julgamos as pessoas com a mesma isonomia, ainda mais se forem da nossa mesma religião ou ideologia política. Queremos acreditar que nós e os que estão ao nosso lado estamos infalivelmente “do lado do bem”, e qualquer fato contra essa verdade não passa de calúnia e conspiração.

De fato, vai ser o que vai alegar Eduardo Cunha, assim como alegam sempre muitos políticos, sejam das esferas federal, estadual ou municipal?

Durante as manifestações do último domingo, um senhor junto com provavelmente seu filho exibia um cartaz orgulhoso “Sonegação é legítima defesa!”. Quantas desculpas não criamos para nós mesmos a fim de justificar nossos crimes? O excesso de velocidade sempre a fim de responder “uma emergência”, o voto dado em troca de um favor ou promessa de emprego a nós ou alguém próximo, “uma questão de aproveitar o voto já que todos os políticos são safados e ninguém vai administrar pelo povo mesmo”.

Essa é a máscara que falta cair, a de nós mesmos, da corrupção diária que já virou tradição e cultura em nosso país. A corrupção somente aflige todos os partidos políticos, a mídia, o judiciário, a polícia, as empresas, as igrejas, e qualquer outro segmento social, porque a corrupção está arraigada nas nossas crenças. Desde pequenos somos obrigados a ouvir: “E o que você ganha com isso?”

E assim, todo mundo pensando em ganhar, o Brasil é quem perde no final. Só neste ano a sonegação deve custar ao Brasil 500 bilhões de reais. E quando nos perguntamos porque a carga tributária é tão alta, será que não é porque milhares de pessoas que deveriam estar pagando seus impostos não pagam, e a conta sobra justamente para quem paga?

Queremos escola, creche, médico, dentista, remédio, estrada “de graça”, mas será que somos tão tolos de não entender que nada é de graça, e quem paga a conta são justamente nossos impostos? Que nada cai do céu, e o dinheiro tem que vir de algum lugar?

O brasileiro precisa largar mão da máscara da hipocrisia, falar menos e dar melhor exemplo. De nada adianta “protestar” contra a corrupção estacionando em lugar proibido (ou pior, para idoso ou deficiente físico), pedindo pra político dar um jeito na multa devidamente recebida, ou negociando alguma vantagem pessoal em troca de voto. Qualquer pedagogo pode explicar muito bem que para a criança um exemplo vale muito mais do que mil palavras, e de nada adianta a pregação dos pais, se o exemplo é completamente diferente.

Relativizar que “a pequena corrupção” é menos crime, e pior, justificável diante da grande corrupção, é como o sujeito dizer a um juiz que deveria ser solto porque roubou mil reais, enquanto quem roubou 80 mil continua solto. Se o cidadão realmente acredita nisso, então não é pior do que o político que cobra comissão quando negocia influência em alguma licitação, pois acredita que faz um “serviço público” e merece ser “devidamente recompensado” pelo seu trabalho. Depois o cidadão reclama que falta médico, creche para seu filho, e de estradas esburacadas, sem perceber que o dinheiro que poderia resolver essas coisas evaporou, tanto nas licitações superfaturadas quanto nas sonegações nossas de impostos de cada dia.