Postado dia 25/10/2014 às 12h10 - Atualizado em 25/10/2014 às 12h11

Brasil decide seu destino amanhã

Mais uma vez o Brasil vai as urnas, escolher democraticamente seus candidatos. Não foi uma campanha fácil. Nunca antes o antagonismo PT X PSDB esteve tão acirrado no Brasil. As duas legendas acabaram aglutinando a esquerda e a direita brasileira, representando projetos bem antagônicos de país. Tal como os democratas e os republicanos nos Estados Unidos, PT e PSDB por sua postura muito bem definida ideologicamente acabaram se sobressaindo diante de outros partidos cujos programas não são tão claros assim. Num país onde palavras são meros adereços nos nomes dos partidos, onde as agremiações basicamente são a mesma coisa apesar de serem adversárias, faz uma enorme diferença conseguir representar, para a maioria dos eleitores, uma concepção ideológica.

Ironicamente, é o Partido dos Trabalhadores que acabou se tornando o verdadeiro defensor da concepção clássica de social-democracia como modo de governo: a defesa da intervenção do estado da economia, a garantia de segurança social para todos os cidadãos, a promoção do bem estar e do emprego através do uso da máquina pública, são pressupostos de todas as sociais-democracias do mundo, desde os tempos em que o presidente Franklin Delano Rossevelt (1932-1945) foi o primeiro a aplicar o modelo com sucesso nos Estados Unidos.

Já o partido dito como “social-democrata”, durante os anos 90 adotou um receituário totalmente inverso, o do neoliberalismo: a defesa da liberdade de mercado sem interferência do governo, a redução de despesas à custa do corte de ações sociais (incluindo aí a educação e a saúde), a diminuição do estado através de privatizações.

Tal escolha entre modelos antagônicos de administração pública é igual ao que vivem a maioria dos países democráticos a cada eleição. A política não é fundamentalmente uma luta do bem contra o mal, mas sim de idéias. De idéias de como a sociedade deve se organizar para procurar o seu bem estar. Não o debate pequeno e rasteiro baseado em calúnias que muitos militantes tentam transformar cada disputa eleitoral.

Infelizmente, grande parte das empresas de comunicação no Brasil nos últimos anos vem promovendo justamente essa atitude entre o eleitorado, através da infantilização e a negação da política. O que não é surpresa, afinal elas são os últimos herdeiros da ditadura militar. A concessão da exploração das ondas de difusão de rádio e TV foi feita, dentro das salas trancadas da ditadura, sem a menor transparência e sem se preocupar com o benefício do público. Através do esquema de apadrinhamento as ondas de radio-difusão, que eram um patrimônio do povo, foram entregues para um bando de famílias que eram aliados do regime.

Quando a ditadura acabou, em 1984, os militares saíram de cena conscientes que não deixavam necessariamente uma democracia para o país, mas uma “mediocracia”. Por anos sucatearam o sistema público de ensino, eliminando matérias que ensinavam os estudantes a pensar, como filosofia e sociologia, e tornando assim a população mais suscetível a quaisquer informações que fossem dadas por rádio, imprensa e televisão, sem condições intelectuais de questioná-las. Há décadas, teóricos da comunicação já escreveram estudos sobre como a informação manipulada tem mais efeito em populações com baixa escolaridade ou qualidade de ensino deficitária. Em suma, povo bem instruído não é manipulado pela mídia. Num país em que até 38% dos universitários são praticamente analfabetos funcionais (segundo pesquisa recente do MEC), o diploma está longe de conferir qualquer “superioridade” intelectual a alguém.

Tais hoje são as ameaças ao sistema democrático: não partido A ou partido B, mas sim um modelo de ensino destinado ao fracasso herdado da época da ditadura aliado a um modelo de comunicação anti-democrático e anti-ético, sem quaisquer controle ou fiscalização da sociedade.

Embora o atual governo tenha avançado muito na questão educacional, promovendo a quase universalização do ensino, que hoje é de 99,7% das crianças brasileiras com idade entre 6 e 12 anos na escola, agora é preciso investir na qualidade. Nesse ponto, a aprovação neste ano para o investimento de 10% do PIB na educação a partir do ano que vem já é uma grande conquista. Que o vencedor do pleito não deixe de prosseguir com os planos em vigência, por ranços partidários. O Brasil conseguiu aumentar a sua nota na avaliação mundial da educação ano passado para 5.2 quase perto da meta de 6.0, que é a maior média alcançada pelos chamados países desenvolvidos.

Um grande entrave, decerto é a descentralização da administração do ensino, já que são as cidades que administram o ensino fundamental (1ª a 8ª série), os estados o segundo grau, e o ensino universitário e escolas técnicas federais, essas sim cabendo ao governo federal. O Brasil hoje tem o 15º maior orçamento de educação do mundo, e ainda não é suficiente, graças aos desvios e superfaturamentos praticados em inúmeras prefeituras, talvez até em alguns governos estaduais. Não é um problema fácil de combater, que será resolvido por um super-homem em Brasília. Somente nós, cidadãos, em nossas cidades, atentos a nossas escolas, é que podemos denunciar as mazelas que acontecem bem nos nossos quintais e que poderiam ser resolvidas de forma bem mais simples se cada brasileiro entendesse realmente como funciona nosso sistema de governo, e a quem cabe cada responsabilidade.