Postado dia 06/09/2014 às 17h36 - Atualizado em 15/09/2014 às 19h46

Os perigos do messianismo político

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Um fenômeno muito comum em países em desenvolvimento, com democracias frágeis é o do “messianismo” político. Messianismo vem da palavra “messias”, que significa salvador, alguém em quem as pessoas acreditam que vai salvá-los no sentido mais amplo e grandioso da palavra. Da conotação originalmente religiosa, a palavra passou a ser usada politicamente ao longo dos séculos, embora as duas tendências não dificilmente se misturem. Os “messias” políticos muitas vezes justamente se arvoram como “ungidos” por alguma escolha divina. São quase sempre apoiados por lideranças religiosas e usam da religião como arma política para chegarem ao poder.

O Brasil já teve sua cota de messias. Do tipo religioso, Antônio Conselheiro e o monge Zé Maria, insuflaram revoltas conhecidas na nossa história como a guerra de Canudos e a Guerra do Contestado. No aspecto mais político, dois líderes que chegaram ao poder que cabem bem na descrição foram Jânio Quadros (1961) e Fernando Collor de Mello (1990-92). Ambos se arvoravam como “combatentes da corrupção”, e arautos de uma “nova política”, além das concepções tradicionais de esquerda e direita que dividem as ideologias.

Fosse o povo mais instruído, não teria caído no conto do vigário em ambos os casos. Usar chavões óbvios falando coisas que o povo gostaria de ouvir é fácil, e geralmente é isso que dá vitória a esses demagogos, mas infelizmente as respostas para os problemas que atacam como a corrupção e o clientelismo político são complexas demais para serem resolvidas apenas com mera boa vontade. Tanto é que os planos de governos de tais messias políticos geralmente são vazios e vagos sobre a forma que irão conseguir cumprir suas utópicas promessas.

Ironia das ironias, uma vez no poder, tais messias utilizam justamente destes mecanismos – o da corrupção e do clientelismo – para tentarem se manter no poder. Jânio e Collor foram derrubados por motivos diferentes, mas cuja raiz é a mesma. Quadros prometeu fazer o que não podia, pois numa democracia o poder é dividido entre executivo, legislativo e judiciário. Após oito meses de um governo que não dizia a que veio, renunciou, possivelmente, segundo alguns historiadores, achando que o povo o reconduziria ao cargo com poderes absolutos, pois não entregariam a presidência para o vice, João Goulart, que era um “esquerdista”. Falhou fatalmente na previsão e teve um dos mandatos presidenciais mais patéticos da história brasileira.

Igualmente patético foi o mandato de Fernando Collor de Mello, totalmente despreparado para exercer o cargo que alcançou convencendo a tantos que ele era o “salvador da pátria”. Acabou comprando briga com os mesmos interesses (da mídia) que lhe elegeram, e tão logo a corrupção vitimou seu governo, não tinha aliados nem no congresso nem na imprensa que conseguiram impedir sua devida punição e expulsão do poder.

Chama a atenção em como as duas escolhas foram desastrosas por parte do povo logo após períodos esperançosos, em que o país tinha tudo para finalmente decolar. Hoje Juscelino Kubitschek é considerado um dos melhores presidentes que o Brasil já teve, mas o fato é que não conseguiu eleger seu sucessor. O povo preferiu eleger Jânio Quadros, o homem da vassoura que prometeu varrer a corrupção. JK saiu xingado do poder, e ao invés do Brasil viver a continuidade de um período de desenvolvimento econômico foi jogado na turbulência política pelo desventurado mandato de Jânio, sua renúncia, e as duas tentativas de golpe contra o vice João Goulart, fragilmente alçado ao poder. O resultado foi a ditadura militar que se seguiu.

Findo a ditadura, o Brasil se redemocratizou, mas logo na primeira eleição deste novo período, quando o país poderia finalmente escolher um mandatário a altura das suas necessidades, caiu no papo de um aventureiro, que começou o desmonte do estado público e cometeu um dos maiores crimes financeiros da nossa história, o do confisco da poupança dos cidadãos.

Fica a pergunta se o brasileiro já viveu o suficiente dessa história para aprender com ela, ou está disposto a repeti-la, infelizmente, porque não se politiza. Muita coisa está errada nesse país e precisa ser corrigida, mas não será nenhum messias que irá consegui-lo. Vivemos numa democracia, onde o poder é compartilhado por executivo, legislativo e judiciário; união, estados e municípios. Os problemas vão além da esfera meramente federal e de executivo.

Mesmo que o “messias” fosse verdadeiro, sozinho não poderia fazer o que se propõe. E se promete que vai fazê-lo, é porque está mentindo, ou seja, não se trata de nenhum messias, mas outro farsante como tantos que já tivemos na nossa política.

Temos que cobrar de múltiplas pessoas e justamente escolher os melhores nas múltiplas decisões que teremos em 05 de outubro. Mas assim como na vida real cada trabalhador sabe que precisa suar muito para vencer na vida, nenhuma resposta para nosso país irá cair do céu num passe de mágica. A mudança pra valer é aquela que vem com seriedade e trabalho, não dom discursos demagogos de quem pode tudo e de “escolhidos”.