Postado dia 30/07/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

A bigorna de 100 quilos

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Como sempre, o Mané chegou muito apressado lá no Sindicato. Pediu uma dose de ki-suco, deu a parte do santo e num gole só devorou o resto do líquido precioso. Quando ia arrastar as chinelas em direção ao barraco, onde a Dona Encrenca lhe esperava com uma cabeça de corvina ensopada, eis que chega no recinto o Zé Bigorna. Os dois se abraçam, conversam por poucos minutos e em seguida o visitante se despediu dizendo iria voltar numa outra oportunidade. Para que pudessem botar as fofocas em dia é claro. Os freqüentadores do Sindicato, curiosos como sempre, perguntam ao Mané quem era tal visitante ilustre e por que motivo o homem andava todo arcado. Ah, esse cara tem uma história muito boa, disse já com o sorriso no canto da boca.



Aos poucos foi narrando a história do amigo. Lembrou, que o Zé sempre foi um lutador. Pai de 12 filhos, homem humilde e trabalhador. É certo, que ele nunca teve uma profissão de ofício. Viveu a vida toda de bicos e de pequenos trambiques. Nas festas de igreja, lá estava ele vendendo cocadas, paçocas e outros quitutes. Nos dias comuns cuidava de uma rocinha, de poucas cabeças de gado. Sempre que podia fazia rolos, vendia e trocava quinquilharias.



Disse o Mané, que certa vez o Zé Bigorna se complicou. Deu até caso de polícia. O delegado da época recebeu uma queixa de um ferreiro lá das bandas de Barra Velha. O ferreiro dizia que tinham lhe furtado uma bigorna de 100 quilos e apontou o Zé como principal suspeito. Soube que o mesmo estava vendendo uma bigorna e que esta poderia ser sua. Diante da denúncia, o delegado, o ferreiro e dois soldados, armados até os dentes, foram até a casa do Zé. Chegando lá, deram de cara com a famosa bigorna com uma placa de vende-se.



Carrancudo como sempre, sem abrir um sorriso sequer, o delegado questionou o Zé. Perguntou como uma bigorna de 100 quilos poderia ter parado ali. Prontamente o Zé respondeu: O caso é o seguinte seu doutô delegado. Eu tava tarrafeando no rio Itapocú, pra ver se caçava umas tainhas, quando vi uma escuridão boiando bem no meio rio. Vinha em minha direção. Preparei a tarrafa e pensei, deve de ser um cardume de tainha. Embalei bem a pegadeira, abri inté o olho e dispois rufei. Senti o peso. Puxei devagar com toda minha força, fiz inté sangue nas mãos, mas para minha surpresa não era peixe e sim essa bigorna. Deu trabalho pra bota ela no bote. Foi uma trabalheira do cão. Ai, como não tinha dono... Não dizem, que aquilo que é achado não é roubado. Pois então, essa bigorna eu pesquei, argumentou o Zé Bigorna.



Final da história. O Zé devolveu a bigorna e ainda ganhou uma gorjeta por ter encontrado a danada. O delegado sem provas nada pode fazer. Mas o Zé carrega o peso da disgramada até hoje. Ganhou o apelido de Bigorna, dois bicos-de-papagaio e um desvio incurável na coluna.