Postado dia 31/08/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

A linguiça do mané

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A Dica nunca foi adepta as novidades tecnológicas, mas também nunca foi tão radical neste assunto. Mas uma coisa que ela gostava de preservar, no estilo a moda antiga, era a sua cozinha. O seu fogão a lenha, coador de café de pano, colher de pau e panelas de barro era seus companheiros inseparáveis. Ela sempre teve orgulho de seus temperos, da carne de panela, dos pães, broas, sopas e de suas deliciosas feijoadas.



A Dica sempre resistiu a informatização de sua cozinha, sempre preferiu seus antigos assessórios. O Mané atento as novidades, pensava em comprar um microondas, fogão a gás e outros eletrodomésticos da moda. Mas a Dica sempre dizia: Besteira Mané. Estas coisas tiram o paladar das comidas. Bom mesmo é do jeito que faço.



Mas um dia ela se rendeu. Aniversário da Dica: festa com toda a família. Uma de suas filhas chegou com um pacote bonito e dentro dela uma panela de pressão. A Dica abriu, deu um sorriso, agradeceu o presente e guardou como se fosse um troféu.



Passaram-se meses e nada de inaugurar o presente, mas a panela de barro continuava a ser sua companheira.



O Mané, agoniado como sempre, queria ver aquela coisa funcionando. Perguntava pra ela quando ia ser o dia. E ela fazia que nem escutava.



Certo dia o Mané foi ao mercado, comprou ingredientes do que seria uma suculenta feijoada. Chegou a casa e disse pra Dica inaugurar a dita panela de pressão.



Mesmo contrariada, ela tirou a panela da caixa de presentes e começou a preparar a bendita feijoada. Ela leu direitinho as instruções do fabricante e mandou ver. Depois de vários minutos a panela começou a suspirar a pressão do ar. O canário- do-reino do Mané não parava de cantar, o gato de estimação olhava assustado aquilo tudo. Até os vizinhos sabiam que a rotina na cozinha da Dica não era a mesma.



Lá pelas tantas, uma explosão. A panela da Dica não aguentou e foi feijão pra todo lado. A cozinha da Dica que era pintada de verde claro ficou marrom. O gato sumiu, o canário engoliu a última nota de seu canto e a Dica que voltava de sua pequena horta, onde tinha ido pegar uns tomates, levou um susto que chegou a torcer o tornozelo direito. Que tragédia.



O Mané que tava no Sindicato jogando conversa fora com seus fiéis amigos, dizendo que ia comer uma suculenta feijoada, escutou o barulho e saiu correndo. O barulhão movimentou a rua do Mané. Era gente correndo pra todo lado.



Quando o Mané chegou em casa, viu a Dica debaixo da mesa como se tivesse procurando alguma coisa. O Mané perguntou e ela respondeu: Tô percurando a tua linguiça que botei no feijão. Será que ela se estrupiou também, disse a Dica ainda meio zonza e triste com o acontecido.



O Mané agradeceu a Deus por nada ter acontecido com a sua cara metade, mas o fato virou gozação lá no Sindicato. Por muito tempo, seus amigos diziam que ele passou fome naquele dia e que ainda teve a sua linguiça esfacelada.



Dias destes passei na casa do Mané, senti um cheiro de feijoada, espiei e vi a Dica no seu fogão cuidando a sua velha panela de barro. Mas o que não se sabe são notícias da linguiça do Mané, mas o nosso herói garante que tudo não passou de um mal entendido e que panela de pressão na cozinha da Dica nem pensar.