Postado dia 28/05/2010 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

A Pedra da Cucha

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MANÉ

DA DICA


Vilmar Carneiro









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A pedra da Cucha

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Numa manhã de inverno o Mané da Dica estava na praia Alegre pitando o seu cigarro de palha numa calmaria só. Nosso herói observava atentamente o mar em busca de um cardume de tainhas.



Para o olheiro Mané, o silêncio era providencial nesta hora, para que as tainhas se aproximassem da praia. Sua tarrafa já estava prontinha para cair na água, e quem sabe caçar uma bela tainha ovada. Mas o silêncio é interrompido. Mané avista um senhor com duas crianças no maior barulho, tentando tirar dois siris do rufo de uma tarrafa que mais parecia um coador de café.



Com olhar de reprovação o Mané fez o sinal de silêncio, porque naquele instante se aproximava da praia um cardume. O senhor e as crianças não entenderam e continuam numa enorme algazarra.



Não demorou para os três se aproximarem do nosso herói. Pediram para que ele ajudasse a desembaraçar a tarrafa e tirar os dois siris que estavam malhados. Feito o serviço, o Mané observou que o trio era da turma dos pés brancos. Para os nativos do litoral os pés brancos eram turistas oriundos da região de Blumenau. Na época (década de 60) se conhecia um forasteiro pela cor do seu pé, que era bem diferente dos da caboclada da beira da praia.



Impaciente com chegada do cardume o Mané tinha que achar um jeito de deixar as tainhas encostarem. O forasteiro pai perguntou pro Mané, qual a razão dele estar observando atentamente pro mar.



Estou tentando ver se acho alguns peixes. O senhor sabia que os peixes fazem ressolhos na água e mais de um, no caso um grande cardume, a cor da água muda, fica mais escura, disse o Mané.



Entom ali na frente pode ser peixe. Uma veiz. Tá escurro ali e a água tá borbulhando, falou o forasteiro.



O pé branco não contou tempo, arrumou tarrafa, embalou e jogou. Aos berros ele disse que tinha pegado alguma coisa. Depois e muitas tentativas de trazer a tarrafa para a praia descobriu que tinha laçado uma grande pedra. Rasgou toda a tarrafa e a pescaria acabou. Não demorou para os três seguirem pra casa em silêncio e desanimados com o que restou da tarrafa e os dois siris de consolação.



A pedra em questão é a pedra da Cucha, que antes do engordamento da praia, com a maré baixa ela podia ser vista. A pedra ficava em frente ao bar da Cucha, ponto onde o Mané tomava uns goles de ki-suco.



Mas o Mané quando viu que a pedra ia laçada se escondeu atrás das canoas, deixou o trio ir embora, esperou o cardume de tainhas encostar, para depois dar as suas tarrafadas. Sabe-se que naquele dia o Mané chegou em casa com um balaio cheio de peixes, que mais tarde a Dica escalou. A tainha era tanta que a família e os vizinhos também ganharam o seu quinhão.