Postado dia 12/07/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

Dona Encrenca e os seus casórios

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Companheira do Mané há mais de cinqüenta anos, a Dica é uma pessoa simples. Na última semana ela estava feliz da vida. O sorriso da danada ia de orelha a orelha. Também, não é pra menos. Uma das diversões prediletas da Dona Encrenca é assistir casamentos. Difícil dizer um que ela perdeu nestes últimos anos. Lá na capela da Matriz a Dica tem cadeira cativa. Basta ouvir os proclames na igreja, que ela marca na sua agenda, o dia e a hora. Já passaram diante de seus olhos, casamentos pomposos, simples e até aqueles considerados na marra. Noivas e noivos, ela já viu pra mais de mil.



Conta o Mané que a disgramada sabe direitinho se a noiva é pura ou não. Sabe até de quantos meses moça está, ou, se não está. Basta um olhar pelas costas pra dizer se é menino ou menina. Vestido de noiva ela conhece muito bem. Calcula quanto foi gasto e ainda descobre se foi no fiado. Quando é alugado então, só falta dizer o nome e endereço da loja que a noiva foi provar.



Ela já viu noivas de todo jeito. De branco, creme, rosa e até de vermelho. Já presenciou noivo esquecendo as alianças, desmaios e até ficar mudo quando tem de dizer o sim. Noiva fazendo figa quando o assunto é fidelidade e padre bocejando na hora da benção final e padrinhos insatisfeitos com o convite. Casamento é sua especialidade. Sabe também se a união vai vingar ou não.



O Mané afirma que a Dica sempre chega na igreja antes dos noivos, da família e do padre. Tem seu lugar cativo. Senta estrategicamente para não perder um detalhe sequer e xinga os fotógrafos quando atrapalham sua visão. Muitas vezes chega a chorar de emoção. Sabe decorado o sermão dos padres e todo o ritual do enforcamento.



Mas na última semana a Dica foi ao êxtase. Foram sessenta casamentos de uma só vez. Casamento Comunitário era coisa que ela ainda não tinha visto. Foi um vidro de colírio para os olhos da danada. O Mané conta que ela chegou em casa cansada e quase não conseguia comer. Queria contar tudo, detalhes por detalhes. Quase se afogou com o pirão e chegou a engasgar-se com uma espinha de corvina.



Foi demais. Tinha noiva pra todo gosto. Noivo então não se fala. De cheirando a leite e outros quase batendo as botas. Os padrinhos eram tantos que muitos inté confundiram os afilhados. Tinha noiva chique, brega e convidados com os cabelos lambidos e madrinhas que pareciam ir debutar no Bailão do Silva. Um espetáculo sentenciou a Dica.

Para o Mané a Dica deveria ganhar dinheiro com a atividade. Ela sabe tudo de eventos sociais. Dizem que é uma reparadeira de primeira. Mas eu acho que ela deveria trabalhar num jornal e fazer a coluna social. Aposto que a Coluna da Dica seria bem lida, falou o Mané elogiando a companheira.



Outro dia encontrei a Dica e perguntei quando iriam acontecer novos casamentos na Matriz. E ela prontamente me respondeu: Tão cedo não teremos outros enlaces. Só se acontecer acidentes de percurso. Agora estou esperando são os batizados. Num casaram sessenta. Então, argum hão de dá frutos , observou a Dica.