Postado dia 22/07/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

O Ensopado de cação

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O Seu Maneca Pita, avô do Mané, era um homem de posses. Morava na zona rural, tinha engenho de cana e mandioca e até alambique. Cultivava a terra e dela tirava o seu sustento. Homem de palavra, honesto, trabalhador, caridoso, mas de opinião. Trabalhava de sol a sol e raramente saia de seu habitat. Religiosamente aos domingos ia à missa. Após as colheitas subia no seu cavalo baio, muito bem escovado e bem tratado, e ia à freguesia negociar os seus produtos.



De suas terras brotavam frutas e legumes. Suas mãos calejadas e o suor de seu corpo produziam a farinha de mandioca, melado, cuscuz, beiju e a famosa cachaça dos Pita. Seus produtos tinham bom conceito da região. Sem contar, a carne de porco, o toucinho, banha e outros derivados. Seu pequeno sítio ainda produzia, ovos, leite, queijo e carne de sol. Comprava pouco na cidade, na verdade sua moeda era a troca.



Com a casa cheia de filhos, todos trabalhavam para o monte. Viviam bem. Praticamente tiravam todo sustento da roça. Seu Maneca não tinha estudo, mas para fazer contas era ligeiro. Mal sabia assinar o seu nome, mas empunhando sua viola, tirava versos de improviso e cantava as amarguras e o prazer de sua vida. Era homem respeitado nas conversas de boteco.



Não era de muita bebida, mas bom de prosa. Fiel a sua esposa, sabia respeitar as donzelas. Tinha orgulho de seu nome e levava a sua prole no cabresto. Moço pra namorar suas filhas precisava ter boas intenções.



Certo dia, Maneca Pita ficou sabendo que o Toninho da Bela, pescador famoso da freguesia, tinha chegado do mar com mais de duas toneladas de cação. Mandou então, um de seus treze filhos até a praia e logo pensou no ensopado de meio dia.



Papai me mandou aqui pra fazer uma troca. Ele pediu pro senhor mandar pra ele um cação bem bonito. Disse, que depois de nós fornearmos a farinha ele manda pro senhor uns vinte quilos, uma porção de beiju e cuscuz, falou o garoto para o patrão de pesca.



Diga para seu pai que no momento não estou precisando de farinha ou beiju, muito menos de cuscuz. Preciso de dinheiro, disparou o velho pescador.



De mãos vazias o filho do Seu Maneca voltou ao lar dos Pita. Contou para o pai o acontecido e foi direto para a roça que era a sua lida. Maneca olhou para a mulher, mandou suspender o tão sonhado ensopado, matou algumas galinhas, que mais tarde foram à mesa, mas o desejo do ensopado de cação ficou na goela.



Passados alguns anos, Toninho da Bela não resistiu à oferta dos veranistas e vendeu sua casinha e seu terreno a beira mar. Comprou então, um pequeno chão com uma casa construída com madeira de canela a quase um quilômetro da praia. Precisava fazer a mudança de seus cacarecos. Vou até o Maneca Pita pegar emprestado o carro-de-boi pra fazer o transporte das minhas coisas, pensou Toninho.



Chegando no sítio dos Pita o pescador foi logo contando que tinha vendido sua morada na praia e que precisava fazer a mudança. Cumpadi vim aqui imprestá o seu carro e sua junta de boi, ou inté alugá, disse o pescador.



Maneca Pita se encheu de razão e foi logo tirando de letra: Bota o cação no carro, gritou inúmeras vezes, não deixando o amigo argumentar. Toninho entendeu o recado e saiu de fininho pelo caminho tortuoso que levava ao sítio dos Pita. Por fim, Maneca trepou no sótão da casa e lá de cima continuava a gritar: Bota o cação no carro; bota o cação no carro, que eu não preciso de dinheiro. E por muitos minutos Toninho ainda ouviu de longe os gritos do velho amigo e compadre Maneca Pita, que ainda devia estar com desejo de saborear um ensopado de cação.