Postado dia 21/09/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

O Sorriso da Vizinha

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Chegou no Sindicato a notícia que o Mané da Dica estava doente e muito mal. Pouco foi visto pelas redondezas e que até na cama estava por vários dias. Mas na quinta-feira veio a surpresa. Eis que surge na esquina da rua da Inveja com aquele andar balanceado o danado do Mané, mais forte que um tronco de canela preta. Chegou cumprimentou à todos e largou aquele sorriso maroto.



Daí Mané como vão coisas, que felicidade é esta? E qual o significado do sorriso colgate?, perguntou Zequinha Pé de Mesa.



Querem saber o significado do sorriso, pois vou contar uma que aconteceu há anos atrás, disse. Lembram da Polaca Doceira?, falou. Claro, quem não lembra daquela carrancuda, lembrou um dos ouvintes.



Pois intão, ela era minha vizinha. Acordava todos os dias lá pelas cinco da matina. Ligava o rádio no último volume e expulsava os sete filhos da cama. Uns ela mandava pra escola, outros pro trabalho, continuou o Mané com pose de historiador.



E o Mané foi narrando. Apesar dela ser origem italiana todos à chamavam de Polaca. Era viúva e beirava uns cinqüenta anos. Senhora rude e de sorriso imaginável. Talvez pela vida sofrida que levava. Trabalhava de segunda à segunda. Era cozinheira de mão cheia. Fazia de tudo: roscas, doces, pães, broas e outros quitutes, que seus filhos vendiam de casa em casa.



Ele lembra que Polaca era incansável, passava horas amassando a massa, à frente do fogão e do forno à lenha. Lenha esta que no final da tarde colhia com filho caçula. Era uma luta. Nas horas de refeição toda família se reunia e era uma balbúrdia só, mas também uma hora sagrada. Hora de agradecer ao Senhor. Depois, as crianças avançavam na gororoba. Era um tal de daqui um pedaço, roubaram o meu quinhão, esse osso é meu, que todos os vizinhos do quarteirão ouviam.



E a Polaca sempre sisuda bastava dar um berro que botava tudo em ordem. Uma coisa ela tinha certeza, seus rebentos eram bem alimentados, fortes, sadios, tinham boa educação e respeito.



Mas um dia Polaca adoece, fica inválida numa cama. Deu derrame. Deus sabe lá o quê?

E todos os dias às 5 horas da manhã, seus filhos acordam, ligam o rádio no último volume, uns vão para a escola outros pro trabalho, amassam a massa, levam ao forno, colhem a lenha, agradecem a Deus pela refeição, brigam por um lugar à mesa...



E Polaca, já agonizando na cama, com o canto da boca sorria o sorriso imaginável. Polaca estava feliz.