Postado dia 04/06/2009 às 00h00 - Atualizado em 15/09/2014 às 18h53

Pescarias do Mané

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Como todos sabem o Mané da Dica é um grande figura e um bom contador de estórias. Sempre que ele narra uma das suas nunca acaba levando a pior. Mas, dia destes, apareceu lá no Sindicato o Tonho da Bela que despejou uma aventura não muito heróica do nosso Mané. O Tonho contou que o nosso herói se ferrou e quase levou uma surra de arame farpado da Dica, ou melhor, da Dona Encrenca, como ele mesmo chama carinhosamente a sua companheira.



Disse, que religiosamente, todas as sextas-feiras à noite, o Mané saía para pescar. Voltava altas horas da madrugada. Foram poucas às vezes que voltou com peixe. Desconfiada da possível treta a Dica começou a marcar sobre pressão o danado. De olhos bem abertos a Dona Encrenca esperava o pescador solitário até muitas horas da madruga. Começou a coçar a cabeça quando percebeu que o Mané voltava com cheiro de ki-suco e de perfume barato.



A areia da praia nos pés e a calça molhada eram detalhes que faziam com que a Dica tivesse certeza que ele fora realmente pescar. Reclamava muito. O mar não está para peixe. Os barcos e a pesca predatória acabaram com os nossos peixinhos. Isso o Ibama não vê. Pobre é assim mesmo, têm de morrer de fome, esbravejava o Mané.



Certo dia, a Dica preparou para o nosso pescador. Arrumou a bolsa, botou café, pão de casa com lingüiça e umas bolachas Maria. Ajeitou o traje de pesca, chinelo, calça e outros apetrechos. E o Mané saiu todo faceiro, dizendo que ia matar um robalo de quatro quilos.



Lá pelas 5 horas da manhã, sem nenhum peixe sequer, volta o valente pescador, reclamando de novo. A dona Encrenca com a calma que Deus lhe deu olha passivamente os trejeitos do companheiro, mas não se compadece. Levanta-se calmamente da cama, vai até a cozinha, pega as tralhas do Mané e pergunta: Meu ilustríssimo pescador, pode me dizer em que praia tivesse pescando?. E ele prontamente respondeu: Na prainha da Saudade, lá na Bacia da Vovó é claro.



E ela, segura como sempre, foi logo de forma carinhosa elogiando o parceiro de tantos anos: Viestes molhado e cheio de areia, mas não poderias pegar peixe algum. Sabes porque? O teu caniço está sem anzol há duas semanas. Cortei a linha com uma tesoura antes de saíres para pescar e tu nem vistes. Com esse cheiro de perfume de quenga nenhum peixe iria chegar perto de ti. Acho que tua praia fica lá pras bandas do Balalaica seu safado, pescador de meia tigela duma ova. Praia da Saudade, só se for na bacia da tua vó. Seu filho duma....



Sem ação o Mané nem correu. A Dica pegou a vara de pescar e descascou no lombo do disgramado, que ficou mais de uma semana lavando as costas com água e sal. Pescar? De agora em diante só se for de dia e ainda sempre rastreado pelo satélite da Dona Encrenca.